MAUS – A História de um Sobrevivente

Esse texto foi publicado há uns 3 anos pra outro blog =) desculpem recomeçar com velharia, mas eu gosto dele.

Uma narrativa incisiva e emocionante sobre o Holocausto.

Nesta HQ, cujo nome original é “MAUS: A Survivor’s Tale” (sim, ao contrário do que muitos pensam, o ‘Maus’ do título não significa pessoas que praticam maldades, mas simplesmente ‘Rato’ em alemão.), Artie conta a história de seu pai, um judeu polonês que sobreviveu à solução final dos nazistas, o Holocausto.

O que mais chama a atenção na HQ é obviamente o fato da representação zoomórfica que o autor deu aos personagens: os judeus são representados como ratos, os alemães como gatos, os poloneses como porcos. Ainda temos, não com tanto destaque na trama, os estadunidenses como cães, os ingleses como peixes e uma cigana que aparece como mariposa. Apesar disso, todos os personagens de Maus são terrivelmente humanos.

A primeira página já demonstra o soco no estômago que está por vir: Artie, pequeno, chega chorando ao seu pai dizendo que seus amigos o tinham deixado para trás. Vladek, o personagem principal da narrativa, responde: “Amigos? Seus amigos? Se deixar eles num quarto sem comida por uma semana, aí ia ver quem é amigo!”.

Mais do que a história do holocausto, Maus é a história do próprio autor: em certo momento, quando a primeira parte da HQ (o primeiro volume foi publicado em 1986.) já fazia certo sucesso, vemos o autor tentando concluir o trabalho, sentado sobre uma pilha de corpos e usando uma máscara de rato. Isso aparece segundo volume de Maus.

O autor diz: “Eu me sinto deprimido. Um dos maiores clichês sobre o holocausto é que, para quem não esteve lá, é impossível imaginar com fidelidade tudo o que aconteceu. Quem sabe eu não me sinta culpado por não ter estado lá? “(Artie nasceu depois, mas seu irmão mais novo era uma criança quando Vladek e sua família tiveram  de ir pros guetos. Não, não vou contar tudo, oras! =P Leia a HQ). Só pra constar, não é uma tradução literal do quadro, mas coisas que ele diz um pouco antes e depois dessa cena também, ok?

Para não me alongar muito, afirmo que, “afinal de contas, os ratos somos nós”, e esse é o grande triunfo de Maus como narrativa histórica é o fato de não “endemonizar” os nazistas em NENHUM momento. Não os tratemos como loucos, porque eles não eram. Então nós vemos que até mesmo o general da SS poderia ser gentil com um prisioneiro, por exemplo. Ou o primo kombinator (é um termo judeu para trapaceiro) de Vladek pode ter passado a perna na família, por desespero.

A intenção da HQ é reavivar a memória e a história do pai de Artie, mas em momento nenhum deixa de ser realista. A partir do momento em que alegamos loucura à Hitler e seus seguidores, isso é um modo de eximir a culpa deles, e não fazer uma análise profunda dos fatores que levaram à solução final de Hitler. Como uma população pôde chegar a tal ponto de compactuar com um extermínio em massa? O que realmente a população alemã sabia?

A historiografia precisa de análises assim, que saiam do senso comum de apontar o dedo para os alemães e dizer “vocês foram (com o perdão do trocadilho) maus”. Disse um historiador famoso uma vez, “todos temos os nossos judeus”. E eu rebato com a afirmação de que “todos somos os ratos, às vezes”. O que fazemos para escapar do que nos oprime? O que você faria para continuar vivo em meioà tragédia? São só algumas das questões que surgem na cabeça do leitor ao se deparar com a história de Vladek.

Recomendo vivamente à todos a leitura desta HQ, que praticamente estraçalha com a idéia que persiste em algumas cabecinhas preconceituosas de que, “Quadrinho é coisa de criança”.

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Operação Cidade Limpa (Se o Kassab pode, eu também posso…)

Este texto foi escrito em 21/06/2007, já publicado em dois antigos blogs.

Dedico sua postagem aqui ao meu amigo Flávio Motta, que é a favor do Borba Gato, mas sempre esteve presente em nossas conspirações no bar do finado Ceará.

eu-com-borba-gato“Estive com o Borba Gato e lembrei de você”


Observação: Foi a única imagem q eu achei na internet.. assustador, não??

Quando eu era pequena e passava pela Av. Santo Amaro aqui em São Paulo eu morria de medo dessa estátua horrenda. Hoje ainda, passando por lá todo dia (caminho de volta para casa da faculdade) me pergunto: “Que merda passou pela cabeça de quem fez essa coisa????” – aliás, acabei de achar na
Wikipédia q foi um tal de Júlio Guerra – escultor que eu sinceramente acredito que não tenha tido infância – quem construiu nosso bizarro Borba Gato que ainda hoje assusta as criancinhas

Essa porcaria aí parece com um boneco de playmobil gigante (daqueles que vinham com uns animais – playmobil safári ou coisa do gênero), e ainda por cima homenageia um pilantra histórico que aparece como herói nos livros escolares.

Mas quem era o cidadão? Primeiramente, era genro de Fernão Dias (outro que foi homenageado, com seu nome numa rodovia, que por sinal é uma das mais perigosas do país), era um pelego de marca maior, que saía por aí caçando índios e escravos e num intervalo entre matar um índio e outro aproveitava pra ver se achava alguma pedra preciosa ou ouro porque tinha imensa vontade de ficar rico.

Outra coisa extremamente fora de moda: essas roupas bonitinhas que a estátua usa. Bom, na época eles mal tinham o que comer… quanto mais dinheiro pra comprar botinha e chapéuzinho (outra prova da imaginação extremamente fértil do escultor). Sem contar que o tamanho da espingarda obviamente nos conota algo sexual.

Esse tio aí só foi considerado herói porque a historiografia positivista SEMPRE só leva em conta o lado de quem tem vantagem (isso lembra alguma coisa?)

Agora, um cara que matava índios e escravos, e ainda poluía os rios buscando ouro, será que realmente merece uma estátua em homenagem? Por que a estátua do Gandhi que fica numa praça perto do parque do ibirapuera é tão pequena e esse pilantra ocupa um espaço tão monstruoso??

Por essas e outras, Sr. Kassab, que peço encarecidamente que essa estátua também seja alvo do programa cidade limpa, visto que com a quantidade imensa de pilantras (inclusive o senhor) que o paulistano (e não só ele, os brasileiros em geral) são obrigados a tolerar diariamente, não precisamos dar de cara com um pilantrão mais antigo todos os dias quando vamos estudar ou ao trabalho.

Outra idéia interessante.

Viram como não é birra minha?? Todo mundo odeia essa estátua de bosta.

Imagina se a moda pega: num futuro distante, uma estátua assim homenageando o Lula, também parecendo um bonequinho playmobil (no caso dele, seria o operário – infelizmente não existe um playmobil metalúrgico), segurando triunfante as mamonas que seriam a marca do biodiesel. Entendem agora por que caso os índigenas e escravos do Brasil Colônia soubessem que o Borba Gato seria homenageado com uma estátua também sentiriam engulhos??

beijosnãomeligaestátuademerda.


PS: desafio todos os visitantes/leitores desse blog a postarem nos comentários o que tal garota da foto com o Borba Gato estava pensando. Não vai ganhar dinheiro com isso, mas eu prometo dar destaque ao vencedor nos próximos posts!

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Números, os malditos números…

A idéia de escrever sobre isso me veio agora. Primeiro dia de férias, acordo com uma rinite desgraçada dos infernos, e resolvo fazer um “Teste de QI” que tem no famigerado universo azul da qual faço parte – sim, quem não tem orkut? Manter contato com pessoas que você não vê faz tempo, ainda que este contato seja limitado ao diálogo:

“E aí  cara… sumiu, hein?”

“É… na correria.  Bora marcar alguma coisa qualquer dia?”

“Beleza”

E encerra-se por aí, pode esperar mais uns 5 meses, para que haja a mesma troca de scraps, novamente. Mas isso é assunto pra, talvez, outro post. Eu quero falar dos números.

Ok, teste de QI feito. Aí pego o resultado e… que diabos isso quer dizer? Não vejo significância em números. Que me desculpem os matemáticos, mas é abstrato demais pra esta pessoa que vos escreve.

Aí comecei e pensar sobre como temos a necessidade de quantificar/medir tudo na sociedade em que vivemos. Até mesmo as tragédias de grandes proporções tornam-se meras estatísticas nos anais da História (acho esse nome tão apropriado.. hahaha). Sei lá, falar em meio milhão de mortos acaba tirando a gravidade da coisa. E o meio milhão de famílias que perderam seus entes queridos? Dessas, ninguém parece lembrar.

Na educação é a mesma coisa. Me sentia como uma lata de lixo vazia enquanto os professsores despejavam tudo que conseguiam, para no final do ano, premiar com a maior nota quem tivesse retido a maior parte das informações inúteis que eles vomitavam para nós. A questão não era te preparar para a vida. Era te tornar tão estúpido e conivente com um sistema como eles. Simples assim. Tu estuda como um animal, para passar no vestibular, e deixar a mamãe feliz.

Alguns devem estar perguntando: “Ué, mas tu se formou professora e agora vem com esse papo?

Sim. Meu modo de encarar a educação é  diferente disso. Pro inferno com essa instrumentalização do ensino. Os números NÃO refletem conhecimento. E o teste de QI não leva a nada. Faça se quiser matar tua curiosidade (o que foi meu caso), mas não leve à sério. Não dá pra simplesmente botar o conhecimento numa concha e pesar.

Assim, como, quando alguém disser que te ama, não pergunte se ama mais ou menos do que antes. Embora nós achemos que isso é natural, nós não precisamos sempre de um referencial. Quem ama, ama e ponto. O guri pode ser péssimo com números, mas ter uma imaginação incrível para criar contos. Simples assim. Por que as pessoas não investem no que tem potencial ao invés de tentar saber o que todos sabem?

Querem que sejamos todos iguais. All in all you’re just another brick in the wall. All in all it’s just another brick in the wall.

Como diria o Pink Floyd.

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E então você veio parar aqui…

Cara, vou ser bem sincera contigo. Tô me lixando pra forma como tu achou esse blog. Seja pesquisando uma receita de culinária, ou procurando um site de putaria, isso não me interessa. Agora, modéstia à parte, se você veio parar aqui, não desperdice essa droga de oportunidade.

Sim, uma oportunidade. Porque, afinal, todas as pessoas passam a vida toda te falando só o que você quer ou espera ouvir. Não é assim que as coisas vão funcionar. Aqui não tem uma moça sorridente e maquiada vomitando notícias cuidadosamente escritas de modo à manipular o espectador da forma como os poderosos bem querem.

Eu não quero que as pessoas que leiam isso aqui saiam com uma porcaria de opinião formada. Aliás, dane-se a opinião das pessoas.

Meu compromisso é mostrar a verdade, ainda que ela seja filhadaputamente sádica. Enquanto alguns enchem o peito para dizer “democracia”, tem nego por aí enchendo o rabo de caviar, sentado em uma pilha de miseráveis, acendendo seus charutos com notas de cem e rindo às suas custas. A Besta ainda está à solta, e está rindo de você.

Espero ter sido clara. É assim que as coisas vão funcionar nessa droga.

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